23 de novembro de 2011

O Mundo Feudal (3ª Parte)

 Do pré-início da atividade comercial no europa agrícola medieval até o surgimento das cidades, passando pela crise da influência da nobreza, e as transformações que as cidades iriam causar numa sociedade acostumada aos seculares e sobrepostos valores religiosos. O surgimento das cidades na Europa Medieval trazia consigo o provérbio "o ar das cidades traz a liberdade" e mais tarde, ao consolidar-se, a máxima: "tempo é dinheiro".

Pré-início da atividade comercial

• Embora os senhorios fossem auto-suficientes, as atividades mercantis sempre existiram. As trocas comerciais aconteciam em feiras, pontos estabelecidos nas proximidades de castelos, e que recebiam o nome de burgos. Sob permissão dos senhores, as feiras podiam se instalar, e caso pagassem taxas e tributos a estes, as feiras eram protegidas pelos senhores do domínio. As transações comerciais aconteciam em períodos irregulares, ou seja, incertos; e apenas em determinados lugares, onde eram praticadas transações de produtos como o sal e metais, que não havia em todo lugar. Havia trocas também, de artigos de luxo, consumidos pela elite feudal.

O expansionismo agrícola feudal

• A partir do século XI, a Europa parou de ser invadida pelos vikings, muçulmanos e húngaros, o que facilitou as atividades comerciais, proporcionando uma queda na mortandade, e um aumento considerável de trabalhadores para as atividades agrícolas, que, consequentemente, resultaram num aumento gradativo da produção. Esse período foi denominado como expansão feudal.

• Para aprimorar as técnicas agrícolas, foram criados novos equipamentos, como a charrua, a coalheira, o moinho d´água e o moinho de vento. A charrua era um arado de ferro que, pelo seu peso, conseguia cortar profundamente o solo, permitindo dessa forma, o cultivo em solos úmidos e pesados ao norte europeu. A coalheira era um arreio em forma de coleira para os cavalos, que os atava as peças do arado. O moinho d´água e o moinho de vento foram criados para facilitar a moagem de grãos, com o objetivo de melhorar o rendimento da produção agrícola.

• Além dessas invenções, foi desenvolvido um novo sistema agrícola, que substituía o antigo sistema de dois campos, este último fazia com que metade do cultivo agrícola fosse realizado no outono com o trigo de inverno, enquanto a outra metade ficava em repouso à esperar enriquecimento do solo. No novo sistema desenvolvido, conhecido como sistema de três campos, 1/3 da terra era plantado no outono com o trigo do inverno, um segundo terço era plantado na primavera posterior com aveia e legumes, e o terceiro terço ficava em repouso. As vantagens do sistema de três campos estavam na maior diversificação dos produtos e uso mais disseminado da terra. Tais inovações na agricultura feudal proporcionaram um aumento na produção de alimentos, e, com isso, um aumento na expectativa de vida que saltou de 25 anos, na Roma Antiga, para 35 anos no período de crescimento feudal. Entre os séculos X e XIV, a população da Europa pulou de 20 milhões para 54 milhões de habitantes. Entre outras consequências do aprimoramento da agricultura feudal, estava a diminuição no número de mortes por fome, ou em decorrência de doenças causadas pela deficiência alimentar.

O nascimento das cidades medievais

• O crescimento na produção agrícola chegou a um ponto que as terras para plantio de uma aldeia senhorial tornaram-se incapazes de abastecer a população, também em forte crescimento. Desse modo, os camponeses passaram a colonizar terras virgens, e os senhores feudais promoviam a transformação de terras selvagens em terras agrícolas; pois isso lhes aumentava a renda. O avanço na tecnologia agrícola, juntamente com a colonização de novas terras, mudaram as condições de vida na Europa, e com trocas comerciais cada vez mais constantes, as tradicionais feiras nos burgos deram lugar à formação de cidades.

No rítmo das cidades

• Nas cidades, as transações comerciais eram intensas, havia um aglomerado de comerciantes, o trabalho livre assalariado, e uma série de serviços para atender aos negociantes. Nessa época, surgiu o provérbio “o ar das cidades traz a liberdade”, que se referia as transformações que o desenvolvimento das cidades fazia no meio social. Entre as transformações espaciais, uma delas foi a migração de trabalhadores rurais para zonas cívicas, além da fuga de vários servos para as cidades. Na época, havia o costume que todo servo que permanecesse um ano e um dia em determinada cidade, sem que o seu senhor o reclamasse de volta, ganhava a liberdade.

• Os habitantes das cidades passaram a ser conhecidos como burguesia, pois viviam sob a proteção de muros fortificados que circundavam o espaço urbano, este denominado forisburgo. Ao passo do desenvolvimento, foram criados por banqueiros, mascates, artesãos e grandes comerciantes, as comunas. As comunas eram associações que representavam um sistema diferente de controle daqueles utilizados pelo clero e a nobreza. Nelas, ricos comerciantes buscavam conquistar a liberdade de organização, e para isso compravam cartas de franquia, ou se fosse preciso, lutavam e iniciavam rebeliões contra o controle dos nobres. A esfera política das cidades também tornara-se independente, sendo composta de governantes eleitos pelos cidadãos.

• As cidades eram vistas com bons olhos por vários reis europeus, uma vez que engrandeciam o poder monárquico, embora também representasse um certo perigo por trazer ideias de igualdade e participação política dos cidadãos. Com o passar do tempo, as divergências entre a nobreza e a burguesia entraram em crise, principalmente na Península Itálica, onde nobres já participavam de empreendimentos comerciais e atividades bancárias, bem como começaram a mudar dos seus castelos para residências de luxo nas cidades. Em contrapartida, os grandes burgueses também passaram a ter interesses na classe dos nobres, de modo que eles, aspirando aos privilégios sociais da aristocracia senhorial, conseguiam casar com membros de famílias nobres em dificuldades financeiras. Quando não adentravam nas famílias nobres por meio do casamento, compravam títulos de nobreza (barão, duque, conde, etc.) e até mesmo, propriedades senhoriais. Pois, embora fossem as cidades que estivessem em crescimento, ser dono de terras ainda representava a máxima da sociedade feudal, sendo que, somente após alguns séculos, a burguesia conseguiria tornar-se a principal classe na Europa.

O avanço cultural dos cidadãos burgueses

• Além das típicas atividades comerciais praticadas nas cidades, surgiram também escolas, de nível básico e superior, à medida que noções como ler, escrever e contar tornavam-se fundamentais para o exercício comercial. Nessa seara, línguas corriqueiras passaram a ser escritas, e mais tarde, teve-se o surgimento de vários idiomas, como o francês, inglês, espanhol, português, entre outros.

• A partir do século XIII, houve o surgimento notável do pensamento crítico, a valorização da cultura clássica (greco-romana) e o pensamento racionalista, que por sinal, ameaça o controle clerical. Isso deu-se pelo interesse burguês em se firmar na sociedade, que até então, era amplamente dominada de forma cultural-religiosa pelos clérigos. Assim, ricos comerciantes, caracterizados como mecenas, passaram a patrocinar artistas humanistas, e com o prestígio político que conquistavam no interior das cidades, os mecenas tornaram-se peça-chave para o movimento cultural, opcional ao clerical, que viria a resultar no Renascimento, séculos mais tarde, XV e XVI.

Leia também a 4ª parte deste estudo (CLIQUE AQUI)

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